segunda-feira, 18 de agosto de 2014

CONTOS - 1 - NÃO HÁ TEMPO PARA PISTACHOS


É fácil cair, até porque há sempre mais quem nos queira deitar abaixo do que quem nos ajude a levantar. Pior ainda é quando alguém está a bater no fundo julgando que está na coroa da lua.

NÃO HÁ TEMPO PARA PISTACHOS


O despertador emitiu vários sinais sonoros até que a mão indolente de Júlia o desligou com o polegar enquanto o indicador ligava o rádio. Ficou assim com os olhos semicerrados a ouvir um locutor que falava de acidentes de viação, afogamentos nas praias, violentos incêndios nas matas e crimes de pedofilia. – coisas sem importância – pensou Júlia enquanto saía da cama espreguiçando-se. Olhou-se ao espelho. Apesar de ter completado recentemente os vinte e oito anos mantinha ainda um ar juvenil que lhe permitia mentir sobre a sua idade. Era linda, mas uma máscara de cansaço toldava aquela rara beleza. – Ossos do oficio – Pensou. A profissão que escolheu exigia muito dela, tanto a nível físico como psicológico.
Dirigiu-se à janela levantou a persiana. Estava um dia radiante de Verão. A praia, ali a dois passos, era um mar de gente. Um miúdo fazia birra por não lhe comprarem um gelado. No passeio desenhava-se a figura caricata de uma velha que se ajeitava-se numa cadeira exibindo um cartaz onde se podia ler: “Alugam-se quartos”. Júlia encostou a testa à janela. A frescura do vidro era agradável. Famílias inteiras dirigiam-se à praia carregando uma parafernália de objectos: chapéus, toalhas, cadeiras, brinquedos, etc.   Mesmo por baixo da sua janela, uma senhora gorda vendia amendoins, tremoços, pistachos e outros aperitivos. Adorava pistachos.
- Daqui a pouco vou lá em baixo comprar uma sacada.
 No areal, por entre toda aquela agitação, vislumbrou uma menina que brincava sozinha misturando areia com os seus sonhos de criança. Por momentos recordou a sua infância. Foi uma criança feliz rodeada de carinhos. Depois começou a crescer e uma sucessão de nefastos ventos levaram-lhe os sonhos e a vontade de viver. Primeiro a morte prematura do pai, depois o padrasto que lhe batia. Mais tarde a mãe partiu também para a eternidade. Ficou sem ninguém que a defendesse daquele ser imundo que era o companheiro de sua mãe. Só tinha uma solução: meteu algumas peças de roupa num saco, guardou o dinheiro que encontrou e pôs-se a caminho de dedo esticado pedindo boleia. O seu destino era ir para longe. É sempre esse o destino de quem foge. Assim ficou só no mundo em plena adolescência. Chegou a passar fome e a dormir na rua. A tudo resistiu até que uma amiga lhe deitou a mão. Agora estava bem. O apartamento virado para o mar e o BMW na garagem davam-lhe a felicidade com que muitos sonham. O toque do telemóvel interrompeu-lhe estes pensamentos que já lhe desenhavam uma lágrima fortuita no rosto. Numero privado como de costume. Atendeu. Uma voz de homem rouca e arrastada fez-lhe diversas perguntas. Ela foi respondendo cautelosamente e terminou a chamada indicando a sua morada.
- Já não tenho tempo para comprar pistachos.
Tomou um banho, secou-se, vestiu um conjunto de lingerie provocante e sentou-se esperando calmamente.         
O primeiro cliente do dia estava para chegar...

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