terça-feira, 27 de dezembro de 2016

DIÁRIO DE UMA CABRA MOCHA

JANEIRO 


O ano já começou, mas a ressaca do réveillon ainda me pesa na
cabeça. O tempo está miserável e não dá para sair de casa. 

Bateram à porta. Fui abrir. Apareceu-me uma loura deslumbrante que tentou a todo o custo vender-me uma cabra mocha. Chegou a dizer-me que teria direito a um útil e prático arranhador de costas com pilhas incluídas, caso pagasse a pronto. Ainda hesitei, mas o bom senso acabou por vencer. Mandei-a embora, mas fiquei com algum remorso ao vê-la descer a rua cabisbaixa com a cabra pela trela. No meu íntimo desejei que voltasse atrás. Não voltou.

Enquanto a chuva fustiga as vidraças fui vasculhar o sótão. No primeiro baú que abri encontrei o diário da minha avó. Fiquei a pensar se devia ou não mergulhar nas intimidades dela. A curiosidade venceu. Abri o diário e fechei-o logo a seguir. Nas primeiras páginas estava a prova de que ela tinha secretíssimas ligações com a máfia russa e com a associação de defesa do lince da serra da Malcata.

As frias noites de Inverno podiam ser de sono repousante se não fossem atafulhadas de sonhos com gafanhotos carnívoros, minhocas aladas e carapaus mutantes.

FEVEREIRO

Continua o tempo frio e chuvoso. Tenho que arranjar um passatempo para isso mesmo: passar o tempo. Decidi dedicar-me à construção naval em miniatura e fazer um barco com fósforos. Talvez uma réplica da nau que levou Vasco da Gama à Índia. Deitei mãos à obra, mas surgiu o primeiro problema: não tinha um único fósforo em casa. Não me deixei abater e tratei de improvisar: fiz o barco com isqueiros. Não ficou nada parecido com um barco. Parecia mais uma nave espacial. Coloquei-o numa prateleira com o título: “Nau Futurista”.

De vez em quando chegava à janela na esperança de ver a loura com ou sem cabra mocha. Em vez dela vieram dois soldados da GNR com ordem para vasculhar a minha casa. Uma velhota tinha sido violada vinte e quatro vezes. (uma vez contra a vontade, duas vezes contra a parede e vinte e uma vez a seu próprio pedido). Eu era suspeito e só não fui preso porque uma loura testemunhou a meu favor afirmando que estivera em minha casa à hora do crime a tentar vender-me uma cabra mocha.

No Carnaval disfarcei-me de tosta mista. Foi um sucesso. Ganhei mesmo o primeiro lugar num concurso de máscaras organizado pela “Associação Filarmónica Gaita Dourada”. 

MARÇO 

Chegaram os primeiros dias solarengos e com eles a vontade de sair para a rua. Decidi por em prática algo que ruminei durante o Inverno: dedicar-me à arqueologia. Muni-me de pá e picareta e comecei a escavar o meu quintal. Ao fim do dia já tinha a descoberto duas latas de atum, uma tesoura de podar sem mola, uma caixa de leite Nido e o selim de uma bicicleta. Todos estes objectos estão expostos no fundo da minha garagem que transformei em museu. 

ABRIL 

Vesti o meu melhor fato, coloquei um cravo vermelho ao peito e saí para a rua cantando a “Grândola vila morena”. Fui assobiado e ridicularizado. Disseram-me coisas do tipo: é foleiro andar de cravo ao peito. A revolução já foi há trinta e tal anos e foi feita por um grupo de arruaceiros. Já não temos governo, mas sim um grupo de marionetas comandados pelos banqueiros e grupos económicos. A nossa economia está nas mãos dos espanhóis. As multinacionais instalam-se aqui por algum tempo e depois vão embora deixando tudo no desemprego. Os nossos têxteis faliram devido à concorrência chinesa. Cada vez há mais famílias endividadas, por outro lado aumenta o número de carros e apartamentos de luxo. A segurança social está à beira da falência. Milhares de reformados vivem com menos de 200 euros ao lado de reformas de 20.000 euros. Depois de ouvir isto tudo voltei para casa de cravo murcho ao peito. A revolução tinha fracassado. Quando cheguei tinha uma cabra mocha no meu jardim. Fiquei cheio de esperança. Mais tarde ou mais cedo a dona loira viria buscar a cabra. Observando melhor conclui que estava prenha. Em breve haveria vida nova. Tratei de telefonar a um restaurante e mandei vir o jantar: uma salada russa para mim e uma piza para a cabra. 

MAIO 

Pensei bem e decidi fazer uma peregrinação a Fátima. Fiz-me ao caminho, mas quis ser diferente dos outros. Sempre achei que os peregrinos, por estarem em penitência, procuram o lado mais difícil das coisas. Afastei-me deles em busca de caminhos alternativos. Percorri carreiros, encruzilhadas e caminhos de cabra com e sem cabras. Na madrugada do dia 13 de Maio, quando milhares de fieis se reuniam na Cova da Iria, entrava eu triunfalmente em Viana do Castelo. A viagem de regresso foi mais fácil graças à experiência de um taxista cego que conhecia as estradas do país de olhos fechados. Ao chegar a casa a cabra mocha já tinha parido. Pariu dois cabritos, uma cegonha, duas solhas e uma tartaruga das ilhas Galápagos. Não há dúvida que esta cabra é uma grande cabra. 

JUNHO 

Já cheira a verão. Enquanto me dedicava ao meu novo passatempo: caçar borboletas com arco e flecha, vi um vulto no horizonte. Pelas formas esbeltas e pelo movimento ondulado não havia dúvida de que era um ananás. Perdão, uma mulher. Ao chegar mais perto vi claramente visto que era a loira dona da cabra. Vinha certamente reclamar o animal caprino e respectiva descendência. Assim era. Depois de muita conversa e algumas bofetadas, convenci-a a formar um lar comigo, com a cabra, os cabritos, a cegonha e a tartaruga. (as solhas tinham sido grelhadas por mau comportamento). Ela aceitou, mas confidenciou-me que estava grávida de dois meses. Ofereci-me para ser o pai e ela aceitou. Se for da raça da cabra sou capaz de lá para o natal ser pai de um belo pinguim, de uma tarântula fofa ou mesmo de um menino. Não importa. Agora sou um homem feliz. Agora tenho uma cabra. 

JULHO

O casamento começou com um problema: éramos de religiões diferentes. Eu era católico praticante de ténis de mesa, a loura era budista zen, zan, zin, zon, zum e a cabra era protestante. Protestava contra a baixa qualidade da ração, mas não havia guito para melhor. Depois de uma pequena discussão que durou 22 dias e 28 noites concordamos em casar na Basílica de Fátima. Fomos a pé, não por sermos peregrinos, mas porque não tínhamos meio de transporte nem dinheiro. A cabra foi à frente e esperou por nós 8 dias até decidir regressar a casa. Um pequeno engano levou-nos mais para sul e acabamos por casar na igreja matriz de Ferreira do Alentejo. Foi lindo. No copo de água, a nossa convidada Odete Santos declamou 37 vezes um poema sobre uma tal Luísa que sobe a calçada. Não terminou a 38ª declamação porque lhe acertei com um peru recheado na cabeça depois de duas tentativas falhadas com o leitão e com uma travessa de arroz doce. Como não havia dinheiro para lua-de-mel, compramos uma estrelita de açúcar amarelo e regressamos a casa. A cabra mocha esperava-nos à porta com um largo sorriso e uma caçadeira de canos serrados. 

AGOSTO

Os filhos da cabra cresceram rapidamente e emigraram. Os cabritos transformaram-se em cabrões logo após o casamento com duas iguanas taradas do Quénia. A cegonha tem uma loja de roupas para criança em Singapura e a tartaruga é candidata a Presidente da Câmara de kuala Lumpur.

Com Agosto vieram os 40 graus e a loura passou a usar tão pouca roupa que juntou uma multidão de mirones em frente a minha casa. Os jardins dos vizinhos transformaram-se em parques de campismo e na rotunda instalou-se uma roulotte de farturas, uma barraca de gelados e um vendedor de algodão doce. Eu instalei uma bilheteira na entrada do jardim enquanto a loura exibia o seu topless e outras coisas lesses. A actividade estava a tornar-se tão rentável que comecei a pensar em comprar um Corsa, um Jaguar ou mesmo um automóvel.

A cabra mocha, ofendida com tanta pouca-vergonha, mudou-se para o sótão onde passou a viver maritalmente com um camelo chinês ou um chinês camelo. Isto sem ofensa para os chineses nem para os camelos. 

SETEMBRO 

A loura atingiu o quinto mês de gravidez. Timidamente sugeri um aborto. Em resposta levei com uma panela de pressão e com um ferro de engomar na cabeça, alem de duas marradas da cabra mocha. (marradas sem cornos como é evidente e por isso talvez se devam chamar cabeçadas caprinas). A cabra zangou-se com o camelo chinês, enforcou-o, esquartejou-o, comeu-o e voltou a ser nossa amiga à taxa de 90% para a loura e 10% para mim.

Por tudo isto passei 15 dias no hospital onde me afeiçoei muito a uma enfermeira a quem chamavam “Branca de Neve”. Gostava muito dela por ser mulata. Talvez já andasse farto de louras. Quando a loura descobriu esta relação extraconjugal ofereceu-me novo enxerto de porrada prolongando assim a minha estadia no hospital. Quando voltei a casa era um homem novo e com esperança no futuro. Esperava-me uma festa tão grande e esbanjadora que durante os próximos três meses não haveria cheta nem para comer. Os balúrdios granjeados no Verão tinham sido transformados em marisco, caviar e champanhe francês. Não faz mal. Há dias bons e dias maus, mas tantos venham como se passam. 

OUTUBRO

Com Outubro vieram as primeiras chuvas, os míscaros e a minha sogra. Só me faltava essa. Assim que abri a porta e vi uma mulher negra, de carapinha e cerca de 180 kg vi logo que devia ser mãe da loura. Tirei-a pela pinta. Perguntou-me pela filha. Disse-lhe que tinha ido tomar banho aos balneários da equipa de futebol. Era costume ela aproveitar a companhia dos jogadores para tratar da sua higiene. Sempre estava acompanhada. Outras vezes ia tomar banho ao quartel de infantaria. Eu não me opunha a nada disso. Só não gostava das gargalhadas de escarnio da cabra que se ria da minha cara. Ou seria da minha cabeça? A minha sogra também perguntou pela cabra, mas esta quando a viu, pôs uma mochila às costas, saltou pela janela a partiu a galope levando atras de si o estendal da roupa. Por um lado fiquei contente. Podia instalar a minha sogra no quarto da cabra que sempre era o mais decente. Por outro lado fiquei apreensivo. Será que a cabra se foi embora de vez? Já não sabia viver sem ela. A minha sogra cumprimentou-me de forma efusiva com dois socos no maxilar superior e um pontapé nas partes inferiores. De seguida foi ao frigorífico, comeu dois chicharros crus, bebeu um litro de leite e saiu porta fora. Pouco depois chegava a loura ainda húmida do banho e visivelmente cansada. Disse-lhe que tinha lá estado a mãe dela. Respondeu-me com dois socos nas partes inferiores e um pontapé no maxilar superior. Apesar da troca nos mimosos gestos reparei alguma semelhança genética herdada da progenitora. Logo a seguir entrou a cabra. Vinha sorridente com a peruca da minha sogra na cabeça e a dentadura postiça na coleira ao lado do chocalho. Desatamos os três os cordões dos sapatos a rir e tratamos do jantar enquanto o diabo esfrega o chão da cozinha e lava as vidraças. Sentámo-nos à mesa e jantamos como uma família feliz que somos. Bifes de vitela para a loura e para a cabra, joaquinzinhos com arroz de tomate para mim. 

NOVEMBRO 

No Halloween, a cabra disfarçou-se de golfinho e foi pedir doces. A loura disfarçou-se de Bela Adormecida, mas não foi a lado nenhum porque adormeceu deitada na tabua de cortar os bifes. Deixei-a dormir. O seu estado de gravidez deixava-a de mau humor quando alguém a acordava. Já só faltava um mês para ser pai. Se era menino ou menina não sabia. Ela era alérgica a ecografias. Ficava com os olhos vidrados e manchas azuis pelo corpo todo. Foi em Novembro que a loura me contou parte da sua vida ao calor da lareira enquanto a cabra tricotava uma gabardine para o meu futuro filho ou coisa parecida. Fiquei a saber que foi criada na mansão de um marquês muito rico que trabalhava nas obras como servente. A esposa era uma riquíssima senhora ligada ao fantástico mundo do cinema. Vendia pipocas. Também fiquei a saber que a sua mãe não tinha leite para a amamentar e por isso tinha mamado nas tetas de uma cabra. Precisamente a mãe daquela cabra que tricotava sentada no meu sofá com um sorriso num canto da boca e um charuto cubano no outro. Nessas amenas cavaqueiras fomos planeando o Natal que se avizinhava. Ficou assente que o tradicional bacalhau da noite de consoada seria substituído por sopa de asa de morcego, sardinha assada barrada com chocolate e marmelada com molho picante para a sobremesa. Para beber seria confecionado um cocktail à base de lixivia, sumo de banana, diluente e nêsperas. 

DEZEMBRO

Em Dezembro chegou o dia que eu esperava há nove meses. A loura começou com as dores de parto. Ainda me ofereci para lhe fazer uma cesariana, mas ela não gostava da forma como eu as fazia e a motosserra também estava avariada. A cabra convidou-me gentilmente com dois coices e uma marrada a sair de casa. Assim fiz. Acampei no jardim e passei a noite mais longa da minha vida. Para me entreter levei um puzzle que não consegui fazer porque tinha duas peças. Era demais para a minha cabeça. Já de madrugada, a cabra chegou à janela anunciando a boa nova. Finalmente era pai. Fui a correr. Lá estava a loura com um bebé ao colo. Pelo bigode vi logo que era meu filho. Devo dizer que a loura não se limitou a parir um filho. Pariu também um orangotango, duas lesmas, um piano de cauda e duas torradeiras. A primeira refeição do meu filho foi uma feijoada à transmontana acompanhada com vinho alentejano e um cocktail de hormonas de crescimento feito pela cabra. Aquilo funcionou tão bem que ao fim de oito dias já o meu filho se estava a alistar nos fuzileiros navais. Quando ele saiu de casa carregado de presuntos, chouriças e aguardente a loura despediu-se também de mim. Disse simplesmente que tinha outras aventuras para viver e que não me voltaria a ver. Apeteceu-me chorar e implorar, mas deixei-a ir. Também eu tinha outros projetos de futuro. A cabra também anunciou a sua despedida, mas não foi com a loura. Subiu ao sótão com ar enigmático. Pouco depois vi o telhado abrir e de lá saiu um disco voador. Elevou-se no ar. De uma pequena janela, a cabra disse adeus e a aeronave desapareceu a alta velocidade.

Fiquei sozinho. Assim passei o natal e o fim de ano. No dia um de Janeiro bateram à porta. Imaginei que fosse uma loura deslumbrante a tentar vender-me uma cabra mocha. Abri a porta. Era uma morena fabulosa a tentar vender-me uma mula zarolha com uma útil e pratica calçadeira electrónica se pagasse a pronto. Mandei-as entrar e fui fazer um chá de caspa de cavalo. Pressenti que tudo ia começar de novo. Ano novo, vida nova.

Fim

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