quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

HORIZONTES #1 - CRÓNICA DE VÍTOR FERNANDES

 HORIZONTES


Há um lugar onde nunca fui apesar de o ver todos os dias e em todo o lado. Esse lugar chama-se horizonte. Chego à janela do meu quarto e vejo-o por cima da Serra do Caramulo. Quando vou em viagem, vejo-o por todo lado, mas sempre distante. Na praia, lá está ele. Uma linha direitinha que separa dois tons de azul. Vejo o horizonte, mas nunca lá estive, porque quando lá chego, ele deixa de ser horizonte e novos horizontes surgem. Se eu pudesse estar aqui e lá, podia estar no meu lugar a observar-me no horizonte, mas não posso. Se calhar até posso. Um dia destes vem um especialista em Física Teórica com uma história complicada que fala de universos paralelos, onze dimensões, buracos de minhoca e teoria das cordas, dizer que posso estar aqui e além. Se calhar até é mais fácil que pôr vacas a voar, mas enquanto não calha reduzo-me àquilo que sou e posso ser. Não alcançar o horizonte também não é drama nenhum. Até ficava por aqui se não fossem as palavras. As palavras da riquíssima língua portuguesa têm mais significados e por isso há o horizonte em sentido figurado. Aquele horizonte que queremos alcançar em forma de realização pessoal. Aqui costumam aparecer dois horizontes que não são contrários nem incompatíveis. São eles o “ser” e o “ter”. Alcançar o equilíbrio entre ambos seria o ideal, mas num mundo materialista onde o grande capital subjuga governos e explora a fome e a guerra, todos querem ter em vez de ser. Acreditem ou não, ninguém vos recordará pela vossa conta bancária, mas sim pelas vossas boas acções, cultura, honestidade, respeito… em resumo: nobreza de carácter. E depois o que é que vale ter um milhão de Euros e pensar que o Brasil é um país europeu, que o Coliseu de Roma anda em obras há um horror de anos ou que a Guerra Fria tem esse nome porque foi no Inverno? O que vale construir uma mansão e viver num anexo nas traseiras para não sujar a casa? O que vale ter um Ferrari para ir até Lisboa a duzentos à hora ver um concerto do Tony Carreira? Andamos cá para gastar, consumir ou para viver num mundo maravilhoso que precisa de ser apreciado, valorizado e compreendido? Por mim acordo todos os dias com vontade de aprender cada vez mais. Claro que faço isso com mais tranquilidade sabendo que tenho dinheiro para comer. A minha fome de conhecimento leva-me outra vez ao tal conceito de horizonte. Vejo-o todos os dias em todo o lado, mas quando o alcanço, passo a ter outros horizontes. Aprendo todos os dias e quanto mais aprendo, mais tomo consciência da minha ignorância e outros horizontes se mostram. No oceano do conhecimento ainda só molhei os pés. É angustiante, mas fico satisfeito quando olho para trás e vejo tanta gente em terra seca convencida que já conhece, gota a gota, os 1.332.000.000 de quilómetros cúbicos de água que há no mar. Amanhã espero acordar e ver a Serra do Caramulo no horizonte. Amanhã espero acordar e aprender um pouco mais. Até lá vou dormir e sonhar com uma mulher de longos cabelos… etc.


Nenhum comentário: