terça-feira, 18 de abril de 2017

CRÓNICAS DA MATARUÂNIA - INTEGRAL


CONSIDERAÇÕES GERAIS

A Matarruânia, capital Maturro, é um país imaginário e por isso mesmo ninguém sabe onde é. Reuniram-se os cartógrafos, geógrafos e outros senhores com profissões esquisitas, para fazer um mapa do mundo da imaginação, mas não conseguiram nada. Assim não tente encontrar esta nação em lado nenhum porque não encontra. É por isso mesmo que aqui estou para lhe explicar tudo.

Os habitantes da Matarruânia, como seria de esperar, são os matarruanos. A moeda é o Pau e não tem câmbio para o Euro. Tinha sim no tempo do Escudo e era semelhante. Por exemplo: mil Escudos valiam mil Paus. Outros tempos. A Matarruânia tem uma porrada de quilómetros quadrados. Talvez também tenha alguns quilómetros redondos e mesmo triangulares, mas isso são coisas que ninguém sabe. O país tem montanhas e vales, até porque tem que haver alguma coisa entre as montanhas. Já que há vales e porque fica bonito nos postais ilustrados, também há vários rios sem que nenhum deles seja Presidente da Câmara do Porto. Logicamente onde há rios há pontes principalmente quando os feriados calham à terça ou à quinta-feira. Também há planícies e praias. As praias têm a particularidade de ser todas à beira mar, à excepção das praias fluviais que ficam nas margens dos rios, talvez por não gostarem do mar ou por não estarem para lá viradas.

A história do país começou há tantos anos que já ninguém se lembra. Sabe-se que o território foi conquistado aos mouros porque estava na moda conquistar tudo aos mouros como territórios, cidades, castelos, ligas, campeonatos e taças. Ao longo de muitos séculos, muita coisa aconteceu. Houve paz, houve prosperidade, mas também houve crises e batalhas sem que nenhuma delas fosse sede de concelho no distrito de Leiria. Há mais ou menos cem anos, o povo chateou-se com o rei e este teve que fugir sabe-se lá para onde. Talvez para junto de um outro rei que ameaça aparecer em dias de nevoeiro. Era só o que faltava. Extinta a monarquia instaurou-se a república que começou por ser das bananas, mas depois passou a ser dos tomates. Talvez por estes frutos caírem frequentemente aos pés dos matarruanos com as leis que o governo inventa.

Maturro, capital do estado, é uma cidade muito bonita durante o dia. Também deve ser durante a noite, mas como não há iluminação pública, ninguém vê nada. Outras cidades importantes são Asnice com a sua universidade e Bêporvê, a terra onde se dá a carne e se fica com as tripas.

A Matarruânia também tem indústria, agricultura, pescas, comercio, escolas, Hospitais, polícias, ladrões, bigodes, feiras de artesanato, gaijas boas, petinga frita, lendas, piolhos, calceteiros e ovos cozidos. Mas isso são coisas de que falarei nas próximas crónicas. 

CULTURA

Por estranho que pareça, na Matarruânia também há cultura. Cultivam-se as batatas, escrevem-se livros, faz-se teatro, cinema, música, dança e até se pintam quadros. Os quadros a óleo trazem o aviso de que o óleo deve ser mudado de cinco em cinco mil quilómetros. Já os quadros a pastel devem ser guardados em lugar fresco, principalmente se os pastéis forem de nata ou de Tentúgal. É por causa destas coisas que os pintores preferem usar a aguarela combinada com a aguardente e a água-pé resultando daí, quase sempre, quadros abstratos bastante turvos. A cultura da batata é de longe a mais importante porque é a única que tem lógica. É a famosa lógica da batata.

Na Matarruânia existem monumentos, biumentos e triumentos que são visitados por turistas vindos de outros países. Uns pontos em comum destes visitantes é que são todos estrangeiros, embora afirmem que só são estrangeiros ali. No país deles não são nada disso. Enfim… esquisitices. O maior monumento da Matarruânia é aquele que é mais alto, mas muitos estudiosos e alguns cábulas afirmam que é o mais comprido. Como não há no país nenhuma fita métrica suficientemente grande para medir monumentos não se sabe qual é o maior nem interessa. A estátua dedicada ao soldado desconhecido era muito visitada até há pouco tempo, mas aconteceu um imprevisto. O soldado desconhecido apareceu e identificou-se como Gumersindo Ferraz, soldado raso número mecanográfico 14630687 e pronto, aquilo perdeu todo o interesse.

Na Matarruânia há escritores e alguns até escrevem livros. O maior escritor do país mede dois metros e sete. Concilia a carreira de escritor com a carreira de basquetebolista e com a carreira das cinco que liga o centro da cidade a um bairro dos subúrbios. O seu maior sucesso literário foi um livro sobre um menino que ia morrendo, mas não morreu. Nessa ida e volta ainda teve tempo de espreitar para o céu e contar o que se lá passa. Depois disso já se escreveram setecentos livros sobre pessoas que estiveram no céu. Procura-se agora alguém que já tenha estado no inferno, mas parece que esses vão e ficam. Daqui se deduz que, ao contrário de São Pedro, Lucifer não faz devoluções.

O último incidente cultural aconteceu quando o ministro da cultura entrou em transe e começou a levitar em pleno parlamento. Enquanto subia entoava canções de Natal em russo. Ao chegar ao teto mudou de cor para azul, acendeu-se-lhe uma luz na cabeça e desapareceu. O mais estranho do acontecimento é que na Matarruânia não há ministro nem ministério da cultura. Enfim… coisas estranhas que acontecem nos países pobres e atrasados. Nada a que estejamos habituados por cá. 

EDUCAÇÃO

Na Matarruânia existe educação. Basta dizer que qualquer matarruano que dê um arrote, deve ir imediatamente à Câmara Municipal entregar um requerimento para que lhe seja passada a respetiva licença que será assinada e carimbada pelas autoridades competentes. Já as autoridades incompetentes não assinam nem carimbam nada por falta de canetas e carimbos.

No país existem muitas escolas e universidades. Estas, além de paredes, muros, grades e portas também têm mobiliário, professores, empregados, moinantes e até alunos. As escolas do ensino secundário e superior são muito rigorosas com as raparigas. Isto acontece principalmente com o vestuário. O joelho é o ponto de referência. As saias ou calções devem estar dez centímetros abaixo do joelho. Já os decotes devem estar um metro acima da supracitada articulação principal do membro inferior. Escrevi assim para não repetir a palavra “joelho”, mas acabei por repetir na mesma. Os rapazes estão mais à vontade, mas não devem usar lencinhos, calças cor-de-rosa, calças ao fundo do traseiro, camisas às flores, blusões de manga aforrada e outras coisinhas que aumentem a libido dos professores que usam bigode para disfarçar. Também as alunas de ombros largos e queixo quadrado devem ter algum cuidado com as professoras de barba rija.

À porta das escolas está um polícia para evitar que entre droga na escola, mas não consegue evitar que ela saia nem mesmo minissaia. Isto porque os alunos de hortofloricultura convenceram os professores a fazer plantações alternativas.

A entrada para a universidade é bastante fácil porque os edifícios têm as portas largas. Já ficar lá a estudar é mais difícil. É preciso ter notas muito altas para subornar os reitores, embora também se possa pagar por cheque ou por transferência. 

O sucesso escolar é um sucesso e o insucesso é um fracasso. Existem bons e maus alunos. Os bons tiram cursos, mas nunca se sabe a quem. Os maus alunos vão para a política e chegam facilmente a ministros. Outra forma de chegar ao poder é desviar largos milhões dos bancos. Note-se que desviar não é roubar. O tratamento judicial é diferente. Os ladrões de bancos são julgados e presos. Os desviadores de dinheiro são bem tratados, os seus processos prescrevem e, mais tarde ou mais cedo, serão nomeados para altos cargos públicos. Felizmente que estas coisas não acontecem em Portugal que é um país justo e honesto. 

SAÚDE

Saúde é uma palavra que se diz na Matarruânia sempre que alguém espirra. Também há quem diga santinho, mas os santos têm mais que fazer do que se preocuparem com espirros. Os médicos são muito avançados, mas também os há médios, defesas e guarda-redes. Os hospitais são assim umas coisas grandes com muitas janelas, mas não devem ser confundidos com comboios visto que não andam sobre carris. O Serviço Nacional de Saúde funciona muito bem a pilhas, mas estas não são incluídas na venda. As listas de espera não são muito longas, até porque a maioria dos doentes morre antes de ser atendido. É conhecido o caso da mãe que marcou consulta para o filho de seis meses. O rapaz foi consultado, mas em vez de ir ao colo da mãe foi pela mão da neta mais nova. As intervenções cirúrgicas são feitas ao som de música. É a chamada música de intervenção. Acaba por ser um estilo musical com muitos adeptos e alguns sócios. Também se fazem muitos transplantes, mas nem sempre corre bem. Recentemente trocaram os pulmões com os rins a um senhor. Ele agora urina pelo nariz e tem que andar de braguilha aberta para não morrer asfixiado. As enfermeiras usam bata à porta antes de entrar e devem ser bonitas e sensuais. Assim tem aumentado o número de óbitos por enfarte do miocárdio em indivíduos do sexo masculino com mais de 80 anos. Resta dizer que a investigação científica é levada muito a sério na Matarruânia. É levada tão a sério que é raro ver um cientista rir-se. Mesmo que os cientistas tenham sentido de humor não se podem rir pelo simples motivo de que não os há.

JUSTIÇA

Na Matarruânia, a justiça é cega, surda, muda, diabética, cabeluda e desdentada, mas tem a mão pesada. Isso acontece por ser cega. Um dia caiu e partiu as falanges, falanginhas e falangetas. Fez também fratura exposta do cubito e do rádio, embora este último tenha sido só partido em onda média. Certo é que com talas e gesso ficou a justiça com a mão pesada. 

O código penal da Matarruânia é muito simples. Quem rouba muito, fica rico. Quem rouba pouco, vai preso. Quem não rouba nada é pobre, parvo e tem que trabalhar para quem rouba muito. Quem comete homicídio está sujeito a penas pesadas, até porque as vítimas nunca sobrevivem. Dantes, as penas, eram leves, mas o governo decidiu importar penas de avestruz para estes casos. A pena de morte está reservada só para quem comete suicídio. Na Matarruânia não há pedofilia porque as crianças são todas maiores de dezoito anos e as menores de um metro e meio também não se medem aos palmos. Os crimes financeiros são tão frequentes que já se tornaram um modo de vida para políticos, afilhados e compadres. 

Os tribunais funcionam à porta fechada no inverno e em dias de vento. No verão têm que abrir as portas porque não há guito para ar condicionado. Só as prisões é que funcionam sempre à porta fechada, embora os guardas prisionais ameacem de expulsão a quem se portar mal. Os juízes são quase todos corruptos. Os outros têm nomes mais vulgares como Eustáquio, Gumersindo, Onésimo ou mesmo José. Os advogados são pessoas muito importantes porque são eles que fazem as leis. Escrevem tudo para que ninguém perceba patavina de nada e assim asseguram os seus empregos porque só eles sabem interpretar aquela algraviada. Não há nada a criticar porque quem não sabe ser caixeiro, fecha a porta, apaga a luz e vem deitar-te a meu lado. 

Na Matarruânia há cinco tipos de polícias. Os altos, os baixos, os gordos, os magros e os mistos. Estes últimos são com queijo e fiambre. Também há mulheres polícia, mas são feias e usam saia e não volte. 

Resta só revelar aqui uma verdade há muito tempo escondida. Sim, na Matarruânia há uma agência de serviços secretos de porco preto com arroz de feijão, batata frita e salada. Recomenda-se um bom vinho tinto da Região Demarcada da Península de Setúbal. 

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