terça-feira, 25 de abril de 2017

O VERDADEIRO 25 DE ABRIL QUE A HISTÓRIA NÃO CONTA

Existem acontecimentos históricos que não ficam na História enquanto outras lendas proliferam e tanto se teima nelas que acabam por ser “verdade”. Assim, enquanto um grupo de militares preparava a revolução que veio a acontecer em 25 de Abril de 1974, outro grupo fazia o mesmo na calmaria magnificente do Maciço Central da Serra da Estrela. Feliz ou infelizmente este grupo foi ultrapassado pelo outro e mergulhou no total anonimato histórico. Se tem vingado, talvez este país fosse muito melhor até porque pior era difícil. Este é o relato verídico de um soldado que viveu esta aventura.

REVOLUÇÃO DE ABRIL 
A outra

31 de Dezembro de 1973 – fui ter ao covil do capitão Magalhães Coutinho algures na Serra da Estrela. Era ali entre montes, vales e lobos que o corajoso capitão preparava a revolução para depor o decrépito regime da ditadura. Depois de uma dura prova que consistia em subir ao cântaro magro em pé-coxinho fui aceite como cozinheiro. A tarefa seria fácil se não fosse a escassez de alimentos. Os rebeldes não apreciaram muito o meu guisado de víboras com carqueja o que me valeu a primeira sova da operação.

15 de Janeiro de 1974 – O capitão Magalhães Coutinho explicou-me os planos da operação designada por “Operação bota a baixo”. Era muito simples. Marcharíamos até Lisboa armados até aos dentes à excepção do sargento Aldino que era desdentado e de mim mesmo que usava prótese. Assim ficou definido que todos iriam armados até aos dentes, eu até à placa e o sargento Aldino até às gengivas. O cabo Biozindo sugeriu que fossemos todos armados só até aos queixos para haver mais uniformidade, mas a proposta foi recusada visto que perderíamos poder de fogo.

11 de Fevereiro de 1974 – A moral das tropas estava baixa. Tentei animá-los com uma refeição diferente: víboras à lagareiro. Levei a segunda sova da operação que me valeu a fractura de diversos ossos secundários. O alferes Tengarrinha puxou do bandolim e tocou toda a música que sabia e que consistia num único tema: “Ó Rita arredonda a saia”. Alguns homens dançaram até à exaustão, outros até à noite e outros desertaram para não mais serem vistos.

25 de Fevereiro de 1974 – O capitão Magalhães Coutinho desmoraliza pela primeira vez e propõe que nos deixemos de revoluções e que vale mais formar uma tuna. O sargento Tengarrinha aproveitou para tocar três versões da “Rita arredonda a saia”. Os rebeldes amotinaram-se, levaram o sargento para trás de um penedo e fizeram-no engolir o bandolim.

15 de Março de 1974 – Alistou-se às nossas tropas o furriel Jacinto desertor de Santa Margarida. Trazia consigo algo de útil: uma bazuca. Quando quis demonstrar o poder daquela arma mostrou-se tão desajeitado que destruiu dois jipes e uma camioneta com dois milhões de quilómetros em estradas de Guiné. Fez voar ainda a arrecadação de mantimentos e o paiol de TNT. Ficamos dois dias entrincheirados temendo que tal arraial nos denunciasse.

30 de Março de 1974 – O capitão fixou o dia 26 de Abril como sendo o dia “B” (dia do bota-a-baixo). Para assinalar o dia histórico fiz um prato vegetariano: cogumelos com zimbro. A tropa não gostou e ofereceu-me a terceira sova da operação.

24 de Abril de 1974 (01.00 h da manhã) – partimos para Lisboa com a grande fé de que derrotaríamos tudo o que se quisesse opor à nossa marcha pela liberdade. O sargento Aldino lembrou-se de ligar o rádio da chaimite para saber como estava o tempo, o trânsito e para ouvir os Parodiantes de Lisboa. Para nosso espanto ouvimos a “Grândola Vila Morena” do Zeca Afonso. Pouco depois a rádio dava noticias sobre um grupo de soldados que marchava sobre Lisboa afim de fazer um golpe de estado. Olhamos uns para os outros em silêncio durante 27 minutos e 14 segundos ficando a cerca de meio minuto do recorde do guiness. Quem estragou tudo foi o capitão Magalhães Coutinho.

- Como é que em Lisboa já sabem que nós vamos aqui!?

O sargento Aldino continuava com a orelha colada ao rádio. Não porque lhe interessasse o programa, mas porque alguém tinha andado a brincar com super cola.

- Meu capitão. Não estão falar de nós. Quem comanda a revolta é um tal Salgueiro Maia.

- Ó raio! Querem ver que nos passaram a perna?

Paramos ali mesmo e só voltamos para trás quando ouvimos a notícia da tomada do quartel do Carmo.

- Caiu o Carmo.

Exclamou o Capitão Magalhães Coutinho.

- E a Trindade?

Perguntei eu.

- Essa continua santíssima.

Nos dias seguintes vendemos todo o material bélico a um sucateiro, compramos instrumentos musicais e formamos a tal tuna que já tinha sido sugerida. Ainda ninguém nos conhece porque ainda não sabemos tocar nada apesar de 43 anos de ensaio. Bem, o nosso capitão já consegue bater no bombo sem deslocar as clavículas.

                                                                                                                                                 Gerónimo Boaventura – Soldado Raso

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