domingo, 13 de maio de 2018

O PRIMEIRO...

Já muito antes de ir para a escola lhe tinham falado em tom de ameaça na régua do professor e das suas reparadoras reguadas. Paulo não acreditava que existisse uma coisa dessas. Podia lá ser? Levar porrada de um professor com uma tábua!? Não. Aquilo era só para meter medo. Naquele dia tiram-no da cama mais cedo. Um banho, um pequeno-almoço, uma bata azul com as iniciais bordadas no bolso, e uma bolsa de pano com uma lousa, um giz, um caderno com a imagem de um jovem da mocidade portuguesa e um lápis. Entrou na sala de aula. Lá estavam os outros miúdos da aldeia também com cara de caso. As miúdas ficavam na outra sala e tinham outro espaço para brincar separado por arame farpado. O professor entrou de rompante. Levantaram-se e todos e ele fez o mesmo. Ouviu-se um coro que ele não teve tempo de acompanhar. 

- Bom dia senhor professor. 

O visado respondeu. 

- Bom dia meninos. 

Os meninos da segunda, terceira e quarta classe rezaram o pai-nosso e cantaram o hino nacional. Ele e os outros da primeira classe ficaram a conhecer aquele que seria um ritual diário. Agora, a bem com Deus e com a pátria, era tempo de começar a aula. O professor careca de óculos grossos abriu a gaveta e tirou uma tábua em mogno. Mostrou-a aos novos alunos. 

- Quem não se porta bem e quem não estuda leva com isto nas mãozinhas. 

Afinal a régua existia mesmo! Não era só ameaça. Felizmente era só para quem se portava mal e para quem não estudava. Paulo não tinha nada a recear. O professor escreveu as letras a, e, i, o, u no quadro negro e mandou copiar. Aquilo saiu tão mal, tão gatafunho que ele achou melhor arrancar a folha ao caderno e começar de novo. Amarfanhou o papel, levantou-se e foi pôr no caixote do lixo. Voltava para trás quando o professor o chamou. 

- Menino, venha cá. 

- Sim senhor professor. 

- Como se chama? 

- Paulo. 

Horror dos horrores. O professor abriu a gaveta e tirou a pesada régua. 

- Estenda a mão. 

Assim fez. Fechou os olhos, mas viu mentalmente a ferramenta de tortura elevar-se e cair com velocidade na sua pequena mão. Uma dor intensa. Mais intensa ficou com os risos de escárnio dos colegas. 

- É para aprender que nunca mais se pode levantar sem me pedir licença. 

Afinal havia muita coisa a saber sobre o conceito de “portar-se bem”. Chegou a hora do recreio e a dor da mão e da alma ficou esquecida. Mesmo em dez minutos ainda dava para encher um saco de papeis e jogar uma futebolada. Paulo não jogou. Ninguém o escolheu para fazer parte da sua equipa. Foi ver o que se passava para alem do arame farpado. As meninas, também em intervalo, saltavam á corda e jogavam ao lenço. Viu a Anita, a sua vizinha. Chamou-a. 

- Anita. Vamos brincar? 

A menina lourinha de bata branca com as iniciais bordadas no bolso aproximou-se da vedação. 

- Não podemos. Nem tu podes passar para aqui, nem eu posso passar para aí. 

- Mas porquê? Nos sempre brincamos. 

- Pois, mas aqui é a escola. 

- Quero lá saber. 

Paulo deitou-se. Rastejou por baixo do arame farpado. Ainda ficou preso, mas passou. Sentaram-se atrás de um arbusto. 

- Estás a gostar? 

- Não. Já levei uma reguada. 

- Deixa lá. 

Ela abraçou-o. Ficaram assim juntos e uma força da natureza que eles ainda não compreendiam levou a que os seus lábios se encontrassem num toque suave e terno. Ambos gostaram tanto que tiveram medo. Fugiram cada um para seu lado assustados, envergonhados e com os pequenos corações aos pulos. Nos dias seguintes olhavam-se de lado como que comprometidos por aquele crime cometido a dois. Hoje, passados cinquenta e quatro anos. Têm três filhos e esperam ansiosamente pelo primeiro neto.

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