sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

ESCRITA À SEXTA - 03 - "B" DE BOBADELA

Bobadela é uma Freguesia do Concelho de Oliveira do Hospital e pronto. Estava tudo dito se não houvesse mais nada a dizer. Acontece que é uma aldeia muito especial, graças aos romanos que, nos fins do Século I – A.C, aqui assentaram arraiais. A região já era habitada por camponeses que ficaram de boca aberta quando viram chegar uns fulanos de saias, escudos, lanças, espadas e capacetes foleiros. Resta saber se os romanos conquistaram, pilharam e escravizaram ou se, simplesmente, se juntaram aos campónios e ficaram todos grandes amigos. Certo é que governava Augusto lá na longinqua Roma quando os seus rapazes aqui fundaram a cidade de Velladis, ou Elbocóris, ou nem uma coisa nem outra. De facto não sabemos o nome da cidade, mas sabemos que, uma vez fundada, alguém exclamou: Mas que esplêndida cidade! Quem assim exclamou, exclamou em latim porque era a língua que sabia falar e devia ser alguém importante, porque outro alguém se apressou a gravar na pedra essa mesma frase, também em latim porque era a língua que sabia escrever. “Splendidissima Civitas” é então a frase que define a cidade. Os romanos, talvez por saudosismo, por boa organização ou por terem a mania, organizavam as cidades à semelhança de Roma. Assim também aqui construiram um fórum que era o centro comercial, religioso e político-administrativo da cidade. No centro do fórum havia um templo dedicado ao Imperador ou a Jupiter ou a Neptuno ou, ainda, a nenhum deles. Uma pedra cravada na parede da Igreja Matriz tem a inscrição: “Neptunale”, o que sugere que havia um templo dedicado a este Deus, mas tanto podia ser o templo do Fórum, como outro qualquer. Ao lado do Fórum, construiram os romanos o anfiteatro. Era espaço de jogos, teatro, música, circo e, claro está, de lutas de gladiadores. Eles eram loucos por essas lutas sangrentas, tão loucos como hoje somos pelo futebol. Durante quatrocentos anos, a cidade foi capital de um vasto Município entalado entre as serras da Estrela, Açor e Caramúlo. Daqui partiam estradas para lugares tão esquisitos como Conimbriga, Igaedis, Aeminium, Talabriga e Vissaium. Claro que esses lugares só tinham nomes esquisitos nessa época porque hoje são Condeixa-a-velha, Idanha-a-Velha, Coimbra, Cabeço do Vouga e Viseu respetivamente. Como nada é eterno e como todos os imperios acabam por cair, também o Império Romano se foi abaixo. Chegou-se a um ponto em que andava tudo à repa-gadelha e depois eram os povos bárbaros a atacar por todo lado e coisa começou a dar para o torto e pronto. Lá se foi o império e os imperadores e os fulanos de saias e capacetes foleiros. O que vale é que esta Península Ibérica sempre teve tendência para ser um corrilório de povos vindos de todo o lado. Vieram os alanos, suevos, visigodos, vândalos e mouros. Foi então que os cristãos arrancaram lá da Galiza e vieram por aí a baixo a desancar os mouros e fundaram Portugal. Os séculos passaram e a vida continuou chata como um piolho. Da glória do Império restam um arco, um anfiteatro, diversos objetos, muita história e um centro interpretativo que vale a pena visitar. 

sábado, 12 de janeiro de 2019

ESCRITA À SEXTA - 02 - "A" DE AMOR

O que dizer sobre o amor? Ser original é impossível, a não ser que diga que o amor é uma batata ou uma saraivada de granizo a bater nos paralelos de uma calçada. Este segundo caso até pode ser aproveitado por qualquer poeta para dizer algo que só os poetas sabem dizer. Os poetas são mesmo as pessoas que mais sabem dizer coisas e que mais tentam definir essa coisa chamada amor. O nosso grande Camões disse que amor é fogo que arde sem se ver e continua nesse belo soneto com uma cascata de contradições até concluir isso mesmo, que o amor é contraditório e indefinível. Se os poetas não chegaram a grandes conclusões, filósofos, teólogos e, até, cientistas não obtiveram melhores resultados. Claro que os teólogos têm sempre resposta para tudo. Como tudo vem de Deus e não se pode questionar Deus, está tudo explicado. Muito confortável, sem dúvida, mas muito longe de satisfazer qualquer espírito crítico e curioso. Tenho a minha teoria que vale tanto como outra qualquer. Amor é um instinto desenvolvido pela nossa espécie que nos leva à reprodução, proteção das crias, defesa da família e união com os restantes membros da tribo. Daí resultam as várias formas de amor. Amor paternal, maternal, fraternal, etc. O amor mais badalado é aquele que une macho e fêmea e leva muitas vezes à reprodução indispensável à continuidade da espécie. É esse amor que está na base de poemas, romances, filmes e peças de teatro. A frase “viveram felizes para sempre” é quase tão frequente no final de uma história como o “era uma vez” é no princípio. Claro que as histórias vão mais ao encontro daquilo que desejamos do que daquilo que temos. Poucos são os amores que vivem felizes para sempre, até porque a felicidade não depende só do amor. Há quem diga que o amor eterno chega a durar seis meses. Os mais românticos rematam logo que isso não é amor, mas sim paixão. Mais um problema. Se o amor é complicado, a paixão ainda é pior, apesar de mais efémera. Trata-se de um sentimento arrebatador que tira o sono e o apetite a qualquer ser humano que caia em tal estado. Da paixão pode germinar um amor ou uma amizade ou, ainda, um ódio figadal que nada tem a ver com o fígado. Pois é. O ódio é oposto do amor, mas é tão oposto que está próximo. O ódio não traz nada de bom, principalmente para quem odeia. Não há nada mais consumidor que esse sentimento que muitas pessoas carregam consigo mesmo. 


Antigamente escreviam-se cartas de amor, naturalmente ridículas, como dizia Fernando Pessoa. Hoje liga-se a Web Cam e pronto. No futuro será descoberto o gene responsável pelo amor e então será assim: O Zé e a Maria entendem que se devem casar, mas não se amam. Passam então por uma clínica onde são modificados os seus genes amorosos e pronto. Saem já de mão dada a jurar amor eterno. Do mesmo modo, qualquer rapaz ou rapariga, pode mandar desativar o gene que estava todo marado por alguém que lhe deu uma tampa.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

ESCRITA À SEXTA - 01 - "A" DE ANO

Ano novo, vida nova, dizemos nós no final de cada ano com o copo de champanhe na mão. Ao outro dia, tirando a ressaca, fica tudo igual. Não é o calendário que nos traz nada de novo, mas sim os nossos atos e acontecimentos da vida. Valia mais dizer sempre ao acordar: dia novo, vida nova. A vida renova-se e esgota-se todos os dias. Todos os dias aprendemos algo, todos os dias fazemos acertos e todos os dias cometemos erros. Somos o somatório de todos os dias vividos. No fim dos dias somos avaliados, não por qualquer divindade, mas por quem cá fica. Por acaso, o tribunal do povo, costuma ser benevolente. Por mais ruim que seja o falecido, há sempre alguém a dizer que ainda não era dos piores. Certo é que somos julgados por aquilo que somos e não por aquilo que temos. A maior parte das pessoas passa a vida a lutar por ter, ter muito, ter ainda mais e, quanto mais se tem, mais se quer. Nessa desmedida ambição esquece-se de ser. No fim, tirando os herdeiros que andam à repa gadelha pela herança, ninguém se lembra do que tinham. Recordamos pessoas como Luís de Camões, Albert Einstein, Nelson Mandela ou Leonardo Da Vinci pela obra feita e pelo seu contributo para o bem da humanidade. Também recordamos Hitler, Lenine e Salazar pelos piores motivos, embora haja quem os idolatre e ainda bem que têm liberdade para o fazer, o que não deixa de ser um paradoxo. Recordamos por aquilo que foram e não por aquilo que tiveram. Alguns nem tinham nada e, ainda assim, deixaram a sua marca na História. 

Um ano, com as suas cinquenta e duas semanas, é o tempo aproximado que a Terra demora a dar a volta ao Sol. Uma pessoa com cem anos já deu cem voltas ao Sol, mesmo que nunca tenha saído da sua terra-natal. Isso significa, em números muito redondos, quase noventa e quatro mil milhões de quilómetros. Mesmo um jovem que festeje dezoito anos, já andou à volta do Sol, cerca de dezassete mil milhões de quilómetros. Até parece muito, mas é uma pequena parte de um ano-luz. Chama-se ano-luz à distância percorrida pela luz durante um ano. Serve esta medida para medir distância entre as estrelas. A nossa estrela é o Sol e está a oito minutos-luz da Terra. É o suficiente para constatar que nunca vimos o Sol, mas sim o que ele era há oito minutos atrás. Quando o vimos nascer, já nasceu há oito minutos. Quando contemplamos e fotografamos um belo por-do-sol, mais não é que uma bela imagem de há oito minutos. Tudo isto nos recorda como tudo é relativo e como Einstein tinha razão ao apresentar uma das mais revolucionárias teorias de sempre. A relatividade até parece estar na forma como consideramos o tempo. Um ano é muito tempo quando se tem quinze anos. Começa a ser menos a partir os vinte anos. A passagem do tempo continua a acelerar com a idade, ainda mais quando se constata que o tempo futuro já será mais curto que o tempo passado.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

CONTOS - A VIÚVA DO PESCADOR


Saber esperar é uma grande virtude. A esperança é uma das pedras Basilares da vida. Esta é uma história triste, mas ainda assim, é preciso não perder a esperança. 


Era uma bela mulher, mas não era tanto a sua beleza que despertava a atenção de Jaime. Era sim a aura de mistério que a rodeava. Os seus longos cabelos negros esvoaçavam ao vento acompanhando os movimentos de um simples vestido comprido da mesma cor. Negro não é cor de Verão, por isso distinguia-se por entre a multidão que caminhava junto à praia. – Uma andorinha no meio de pombas brancas. – Pensava Jaime. Ali estava ela todos os dias sentada num rochedo olhando o mar. Apenas olhando o mar. Nada mais à sua volta interessava. Seria assim tão obcecada pela natural beleza do imenso oceano? Camões chamava às águas do Tejo as suas musas de inspiração, as suas “tágides”. Será que o mar inspirava aquela mulher para alguma criação artística? Tudo isto eram conjecturas que anuviavam o cérebro de Jaime. Costumava sentar-se à sombra de uma frondosa árvore naquela hora pachorrenta de maior calor. Lá estava ela no rochedo em frente. Algumas vezes tentou chamar-lhe à atenção sem qualquer resultado. Um dia resolveu pedir informações a um velho homem do mar que também aproveitava a sombra da árvore. 

- Aquela rapariga é de cá? 

O homem de rosto crispado pelo ar marítimo puxou uma fumaça do cigarro e olhou Jaime com curiosidade. 

- Qual rapariga? 

- Aquela ali sentada. A do vestido preto. 

- A Joanita? É de cá sim. 

Uma onda de tristeza inundou o rosto do velho pescador. Abanou a cabeça murmurando. 

- Pobre menina... coitadinha da nossa menina. 

- Porque fala assim!? 

- É uma história triste. A história da nossa menina. 

- Está a deixar-me curioso. 

- Olhe para ela. Que é que acha dela? 

- Para começar é muito linda, mas um pouco triste e solitária. Não tem amigos, nem amigas!? Um namorado!? 

- Teve isso tudo. Fui colega do pai dela na pesca. Era um valente marinheiro. Muitas vezes estivemos perto da morte, mas nunca vi medo naquele homem. Conheço a Joanita desde o berço. Cresceu e transformou-se na mais bela rapariga que esta terra já viu. Herdou a fibra do pai. Chegou a ir com nós para o mar. Foi assim que namorou e casou com o Rodrigo: um valente rapaz. Só se sentia bem no mar. Há coisa de três anos, o Rodrigo embarcou no arrastão “São Tiago”. Uma tempestade medonha afundou-o. Os corpos dele e dos restantes tripulantes nunca foram encontrados. 

Lágrimas de dor sulcavam o rosto do homem. 

- Se não quer recordar coisas tristes deixe lá senhor. 

- Eram todos meus amigos. Compreende? Agora quero contar o resto. A Joanita não aceitou a perda do marido. Não aceitou nessa altura nem nunca. Que é que acha que ela está ali a fazer todos os dias? 

Jaime olhou para ela. Passou as mãos pelo rosto e com olhar incrédulo perguntou. 

- Não me diga que é o que eu estou a pensar! 

- É sim meu jovem. A Joanita passa os dias ali sentada à espera que o “São Tiago” suja no horizonte com o seu Rodrigo. 

- É incrível! Não há ninguém que a faça desistir dessa espera inútil!? 

- Já muitos tentaram falar com ela, mas não vale a pena. No fundo até é melhor assim. 

- Melhor assim como!? 

- É a esperança que mantém a nossa menina viva. Mesmo sendo uma esperança falsa é sempre uma esperança. 

- Acho que é mais um estado de loucura. 

- Alguém consegue dizer o que é a loucura? Acredite nisto: diz o povo que “enquanto há vida há esperança”. É uma grande verdade, mas também só há vida enquanto houver esperança. Ou, se quiser chame-lhe fé. 

Meses mais tarde Joana desapareceu sem deixar rasto. As autoridades procuraram por todo o lado acabando por desistir. Falou-se em suicídio, rapto ou qualquer horrível acidente. Entre os pescadores conta-se que uma noite alguém viu um arrastão aproximar-se da praia envolto em nevoeiro. Um vulto escuro correu pelo areal, mergulhou no mar e nadou vigorosamente até à embarcação. Pouco depois uma inesperada rajada de vento dissipou a neblina e ficou apenas o mar. o imenso mar salpicado de pontos prateados feitos de raios de lua.

Fim