quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

CRÓNICAS #002 - CULTURA

PROMETEU

Cultura, por definição, é o conjunto de manifestações artísticas, sociais, linguísticas, e comportamentais de um povo ou civilização. Assim podemos dizer que fazem parte da cultura de um povo atividades e manifestações como música, teatro, danças, artes plásticas, rituais religiosos, língua falada e escrita, mitos e lendas, hábitos alimentares, arquitetura, invenções, pensamentos, organização social, etc. Em maior ou menor grau, todos os povos têm as suas manifestações culturais. A cultura de cada pessoa é o reflexo da cultura do povo a que pertence. A cultura de um povo é a sua maior riqueza e a sua maior força. Um exemplo clássico vem da chamada antiguidade clássica. Roma, com o seu poderoso e bem organizado exército, conquistou a Grécia com relativa facilidade. Deparou-se então com um povo culto. Um povo conhecedor das artes, da arquitetura, da matemática, da astronomia, da física e da filosofia. A Grécia, mesmo ocupada, nunca perdeu a sua identidade como nação-berço da democracia. Os romanos copiaram-lhes tudo, incluindo a própria religião politeísta. Um povo será tanto mais livre quanto mais culto. É difícil enganar e oprimir quem tem elevados conhecimentos. Veja-se o exemplo das mitologias religiosas. O titã Prometeu deu o conhecimento do fogo aos humanos. Os deuses deram-lhe o castigo de ficar amarrado a um penedo e um abutre vinha-lhe comer o fígado. Adão e Eva foram expulsos do Paraíso por comerem o fruto do conhecimento. Na política, Hitler mandou queimar milhares de livros. Salazar, subtilmente, investiu na escola primária, sugerindo que a 4.ª Classe era suficiente para os rapazes e as meninas deviam ficar pela 3.ª Classe. Valia mais dedicarem-se a bordados e aprenderem a ser boas donas de casa, mães e esposas submissas ao marido chefe de família. Nem deuses nem ditadores admitem grandes conhecimentos. Hoje, no mundo ocidental, não temos um ditador, mas nem por isso estamos livres da ditadura. O povo continua a ser desviado do conhecimento. A palavra cultura é sinónimo de aborrecimento. Visitar um museu é uma “seca”. Uma exposição é perder tempo. Ler livros é coisa de parvinhos “nerds”. Um jovem intelectual é um cromo que nem sabe jogar futebol. A televisão, que devia ser veiculo de cultura, limita-se entreter o povo com nulidades patéticas. A cultura é sempre o parente pobre de qualquer orçamento, seja de uma Freguesia, Município ou Estado. Fica com aquilo que sobra e leva os primeiros cortes em tempo de crise. A um povo inculto é fácil incutir a ideia de que podem ter tudo, graças aos bancos que nos dão o mundo em forma de cartão de plástico. Incultos e endividados somos submissos e temos que trabalhar cada vez mais por cada vez menos para encher os cofres de uma ditadura sem rosto. Um dia, entrei num supermercado e uma jovem bonita, simpática e bem vestida tentou vender-me um cartão de crédito. Expliquei que não vivia a crédito. Trabalhava, ganhava, poupava e gastava conforme o que tinha sem descurar o futuro. Ela ficou a olhar para mim como se eu tivesse acabado de sair de uma caverna vestido com uma pele de urso e com um machado de pedra ao ombro. Temos pena.


quinta-feira, 23 de maio de 2019

TEXTO HUMORÍSTICO #001 - BOBADELA - TODA A VERDADE

Bobadela é uma Freguesia do Concelho de Oliveira do Hospital e pronto. Estava tudo dito se não houvesse mais nada a dizer. Acontece que é uma aldeia muito especial, graças aos romanos que, nos fins do Século I – A.C, aqui assentaram arraiais. A região já era habitada por camponeses que ficaram de boca aberta quando viram chegar uns fulanos de saias, escudos, lanças, espadas e capacetes foleiros. Resta saber se os romanos conquistaram, pilharam e escravizaram ou se, simplesmente, se juntaram aos campónios e ficaram todos grandes amigos. Certo é que governava Augusto lá na longinqua Roma quando os seus rapazes aqui fundaram a cidade de Velladis, ou Elbocóris, ou nem uma coisa nem outra. De facto não sabemos o nome da cidade, mas sabemos que, uma vez fundada, alguém exclamou: Mas que esplêndida cidade! Quem assim exclamou, exclamou em latim porque era a língua que sabia falar e devia ser alguém importante, porque outro alguém se apressou a gravar na pedra essa mesma frase, também em latim porque era a língua que sabia escrever. “Splendidissima Civitas” é então a frase que define a cidade. Os romanos, talvez por saudosismo, por boa organização ou por terem a mania, organizavam as cidades à semelhança de Roma. Assim também aqui construiram um fórum que era o centro comercial, religioso e político-administrativo da cidade. No centro do fórum havia um templo dedicado ao Imperador ou a Jupiter ou a Neptuno ou, ainda, a nenhum deles. Uma pedra cravada na parede da Igreja Matriz tem a inscrição: “Neptunale”, o que sugere que havia um templo dedicado a este Deus, mas tanto podia ser o templo do Fórum, como outro qualquer. Ao lado do Fórum, construiram os romanos o anfiteatro. Era espaço de jogos, teatro, música, circo e, claro está, de lutas de gladiadores. Eles eram loucos por essas lutas sangrentas, tão loucos como hoje somos pelo futebol. Durante quatrocentos anos, a cidade foi capital de um vasto Município entalado entre as serras da Estrela, Açor e Caramúlo. Daqui partiam estradas para lugares tão esquisitos como Conimbriga, Igaedis, Aeminium, Talabriga e Vissaium. Claro que esses lugares só tinham nomes esquisitos nessa época porque hoje são Condeixa-a-velha, Idanha-a-Velha, Coimbra, Cabeço do Vouga e Viseu respetivamente. Como nada é eterno e como todos os impérios acabam por cair, também o Império Romano se foi abaixo. Chegou-se a um ponto em que andava tudo à repa-gadelha e depois eram os povos bárbaros a atacar por todo lado e coisa começou a dar para o torto e pronto. Lá se foi o império e os imperadores e os fulanos de saias e capacetes foleiros. O que vale é que esta Península Ibérica sempre teve tendência para ser um corrilório de povos vindos de todo o lado. Vieram os alanos, suevos, visigodos, vândalos e mouros. Foi então que os cristãos arrancaram lá da Galiza e vieram por aí a baixo a desancar os mouros e fundaram Portugal. Os séculos passaram e a vida continuou chata como um piolho. Da glória do Império restam um arco, um anfiteatro, diversos objetos, muita história. Isto é enquanto a malta não pega nas pás e enxadas e começa aí a virar tudo do avesso. Pode bem acontecer que lá no avesso esteja um teatro, umas termas, um templo, uma coleção de vasos, moedas ou mesmo uma lata de atum. Por enquanto sugiro que visitem o nosso centro interpretativo. Não dói nada e é grátis.