quinta-feira, 4 de maio de 2017

ADÉRITO E CACILDA - INTEGRAL

Adérito e Cacilda formam um jovem casal ainda sem filhos. Cacilda é caixa num supermercado e Adérito é condutor de autocarros. Um casal feliz com as suas desavenças. Um casal português com certeza.


I

Cacilda entrou na cozinha e ficou de mãos espetadas na cintura a observar a cena. Adérito andava de gatas debaixo da mesa abanando a cabeça e resmungando. 

- Posso saber o que raio é que andas a fazer de gatas? São saudades da infância?

Ele levantou a cabeça surpreendido dando uma cabeçada na gaveta da mesa fazendo tilintar os talheres.

- Olha… ando à procura de um parafuso que rebolou para aqui.

Ela abanou a cabeça fazendo estalar a língua no céu da boca. 

- Ó querido. Olhe que quando eu te conheci já tinhas um parafuso a menos.

- Ó fofa. Foi por isso mesmo que casei contigo. 

(Este primeiro episódio é descaradamente baseado num texto do Roque e a amiga desse mítico programa de rádio que foi o Pão com Manteiga)

II

Adérito estava enterrado nos cobertores a escarafunchar nas narinas com o dedo mindinho. Pelo canto do olho observava a esposa que andava pelo quarto com cara de poucos amigos. Andava numa qualquer tarefa estranha para ele. Tarefa de mulheres – pensou. Ela acabou por o esclarecer.

- Não encontro a porra dos chinelos roxos.

- Deixa lá fofa. Esses chinelos também não condizem com esse pijama ridículo. 

Ela ficou ainda mais furiosa.

- Ridículo era o senhor seu avô.

- Credo fofa. Não se irrite e deixe lá o meu avozinho em paz. 

- O seu avozinho nunca devia ter nascido e a minha irritação, depressão e o diabo a quatro é crónica.

- Ele enterrou-se mais nos cobertores.

- Pois. Estamos outra vez naquela altura do mês.

- É por isso que odeio os homens. Não sabem o que é T.P.M.

- Sei, Sei querida. 

Exclamou ele triunfante.

- São as iniciais para: tem paciência marido.

III

Adérito foi pé ante pé até à balança que tinha no quarto. Olhou para o ponteiro e mandou um grito semelhante a um uivo de lobo embora também se aproximasse do célebre grito do Tarzan. Cacilda acordou estremunhada e sentou-se na cama. 

- Por acaso podes-me explicar porque é que estás para aí aos berros a esta hora da manhã? 

- Sucesso fofa. Sucesso. As minhas caminhadas estão a dar resultado. 

Cacilda deitou-se para trás apoiando a cabeça nas palmas das mãos.

- Ai sim!? Então traduza lá em números esses feitos heróicos.

- Para calar os seus sarcasmos só lhe digo que perdi dois quilos na última semana. Posto isto, vou tomar banho. Até já fofa.

Cacilda levantou-se languidamente e também ela subiu para a balança enquanto ouvia já a água a correr na casa de banho. Adérito entrava já para a banheira quando ouviu a voz gritada e esganiçada da esposa.

- Adérito… odeio-te. Acabei de encontrar os malditos dois quilos que tu perdeste. 

IV

Pequeno-almoço em silêncio. Só a rádio falava da seca e dos incêndios florestais em Fevereiro. Adérito devia estar noutra onda pela forma como quebrou o gelo.

- Ó fofa. Sabias que na minha aldeia há uma rua chamada Rua da Amargura?

- Não. Não sabia nem tenho grande interesse nos nomes das artérias da tua aldeia.

- Outra coisa que não sabes é a origem histórica de tal nome, mas eu passo a explicar.

Cacilda enfiou na boca o resto da torrada e foi mesmo a mastigar que atalhou o marido.

- Ó querido… poupa-me com as tuas divagações culturais e com os teus conhecimentos eruditos. Não tenho paciência para isso a esta hora da manhã. 

Adérito ficou amuado e tratou de beber o copo de café com leite de uma golada.

- Tem razão fofa. A cultura deste país está relacionada com a rua da minha aldeia. Também anda pelas ruas da amargura. 

V

Adérito andava atarefado a pendurar um quadro na parede do quarto. Assobiava uma melodia qualquer que nem ele conhecia muito bem. A melodia foi interrompida por uma martelada nos dedos e pela entrada de Cacilda. Ela ficou a olhar para o quadro com as mãos espetadas na cintura.

- O fofo importa-se de me explicar que porcaria de quadro é esse?

- Então não estás a ver? São dois cães a ladrar. Dois cães de guarda que defendem os bens do dono num acto de fidelidade. É lindo, não é?

- Talvez nem seja feio, mas faz algum sentido ter cães a ladrar num quarto? Isso é quadro para uma garagem ou coisa assim. 

A análise da obra ficou por ali graças a intenso ruido de buzinas na rua. Ela foi à janela ver o que se passava.

- Olha fofo. Vai ali uma caravana de carros a buzinar. Deve ser um casamento. 

Adérito saltou do escadote e aproximou-se da janela ainda a apalpar o dedo mordido pelo martelo. Abraçou a esposa pelas costas observando a fila de carros enfeitados com fitinhas brancas.

- Estás a ver fofinha. Aquele quadro faz todo o sentido. Os cães ladram, mas a caravana passa.

VI

Adérito e Cacilda chegaram a casa ao mesmo tempo. Coisa rara, mas por vezes acontecia. Adérito vinha radiante contrastando com o ar murcho da esposa. 

- Fofa, que carinha é essa?

- É a cara de um dia de trabalho. Já tu parece que vens duma festa com esse sorriso parvo!

- Não é bem assim. Também venho cansado, mas é fim-de-semana. Temos que nos animar. 

Cacilda preferiu não responder e tratou de abrir a caixa de correio. Tirando os folhetos do supermercado só havia a conta da electricidade. Abriu o envelope.

- Olha fofo. Não é para estragar essa animação, mas temos mais de cem euros de luz para pagar. 

- Azar.

Um sinal sonoro de SMS soou no telemóvel de Cacilda. Ela apressou-se a ler. O texto fê-la sorrir.

- Bem querido. Nem tudo é mau. A minha mãe vem cá passar o fim-de-semana.

- Pois é fofa. Tem razão a sabedoria popular: um azar nunca vem só.

VII

Cacilda andava atarefada de volta do fogão a fazer o jantar. Adérito estava enterrado no sofá a ver o “Preço Certo”. Ela veio para a porta da sala e ficou ali de braços cruzados.

- Sinceramente. Achas que ainda estamos no tempo em que a esposa faz tudo enquanto o marido vê televisão?

- Então fofa. Sabes que eu não gosto de invadir o teu mundo chamado cozinha.

- Olha… essa foi das bocas mais antiquadas e machistas que eu já vi. Não tens vergonha?

- Vergonha, tenho. Não tenho é jeito para as panelas. Alem disso, quero ver se ganham a montra.

Cacilda voltou para a cozinha resignada. Também o jantar não precisava de grande ajuda. Esparguete com atum era fácil e rápido. Era a receita da juventude que não foi habituada a fazer sopa. Adérito entrava agora na cozinha. 

- A senhora ganhou a montra.

- Olha. Quem ganha o céu sou eu só por o ter que aturar.

- Deixa lá querida. Este fim-de-semana também vou ganhar muitos pontos para ter direito ao céu.

- Ai sim? E pode-se saber porquê?

- Então… já te esqueceste que vamos cá ter a tua mãezinha? 

VIII

Sábado de manhã. O casal ainda está na cama, mas Cacilda sacode Adérito que finge que dorme. Ele mergulha a cabeça na almofada e ignora completamente a esposa.

- Fofo. Não vais ficar aí a partir pedra até ao meio dia. Pois não?

- Ó querida. Deixa-me estar mais um pouco. Afinal hoje é Sábado. 

- É Sábado, mas já esqueceu que temos visitas?

- Vistas? Mas não é só uma? Não é só a tua querida mãezinha?

- Foi uma forma de falar.

- No fundo tens razão. Só ela vale por um regimento.

Cacilda saltou da cama visivelmente aborrecida. Pior ficou quando viu o tempo de chuva tipo patanheiro ou molha-parvos. 

- Não sei porquê tanta implicância com a minha mãe!

- Ela é que implica comigo. 

- Ainda por cima está um tempo miserável.

Adérito virou-se para o outro lado e aconchegou a roupa da cama. 

- Mas que rica manhã para dormir. Enquanto durmo não vejo a chuva nem a tua mãezinha me azucrina os miolos. 

Nesse momento tocou o telefone. Cacilda foi atender. Voltou com um ar triste.

- Era a minha mãe a dizer que já não vem.

Adérito saltou da cama a assobiar uma melodia que não existe. Cacilda ficou surpreendida com tanta genica assim repentina.

- O que é que te deu assim de repente!?

- Nasceu-me uma alma nova e não me digas mal do tempo. Está um lindo dia, vá-se lá saber porquê. 

IX

Cacilda estava sentada no sofá com o portátil nos joelhos martelando o teclado de forma a roçar a violência. Adérito entrou ali na sala e ficou a olhar para ela enquanto coçava o nariz.

- Querida, não me digas que estás no Facebook!?

- Ó fofo, sabes bem que ainda não aderi a redes sociais. Acho isso uma parvoíce, uma perda de tempo e uma forma de devassar a vida de cada um.

- Olha que já deves ser a última portuguesa sem Facebook. Quem não está na net, não existe. Sabias?

- Só te digo que não estou para perder tempo com futilidades. E já agora sê bonzinho e vai-me buscar um bloco de apontamentos e uma caneta. 

Adérito foi ao quarto buscar o que a esposa lhe pediu. Estava curioso com aquele frenesim informático pouco habitual. Passou pela cozinha, abriu a lata dos biscoitos e levou dois. Um para ele e outro para ela. 

- Aqui tens fofa. Já agora posso saber porque mares navega a minha mais que tudo?

- Quero aqui anotar o site de uma revista do Jet 7 e ver o que vai acontecer na novela da noite durante a semana.

- Realmente não perdes tempo com futilidades na internet. Tenho muito orgulho de ti. 

X

Adérito atirou com o jornal para um canto visivelmente aborrecido. Cacilda limava as unhas. Tinha trazido para o sofá uma caixa com toda a parafernália de vernizes e afins. 

Querida. Não achas que é triste passar uma tarde de domingo assim.

- Assim como?

- Eu aqui a ler um jornal e tu para aí na manicura. 

- Então fofo. O que é que querias fazer com este tempo de chuva? Porque é que não ligas a televisão?

- Não tenho paciência para ver filmes ultrapassados e programas de música pimba em playback.

- Se tivéssemos um filho, já teríamos com que nos entreter.

Adérito olhou para ela admirado. É claro que queria ser pai, mas estava definido que isso aconteceria depois de pagarem certos créditos do tempo das vacas gordas. 

- Querida, não me digas que o teu relógio biológico está dar o alarme. 

- Então… o próprio governo diz que nascem poucas crianças em Portugal e que a população está envelhecida. Alguns municípios até dão apoio à natalidade. Enfim… o país precisa de gente nova. 

Adérito ficou pensativo.

Tens razão querida, mas o que é preciso fazer para que nasçam mais crianças em Portugal.

Ela foi-se sentar ao pé dele com um ar divertido.

- Então fofo! Pareces o Cavaco Silva! Com essa idade ainda não sabes!? Queres que te faça um desenho? 

XI

Cacilda estava sentada no sofá a fazer palavras cruzadas quando Adérito entrou a espreguiçar-se depois de uma boa sesta.

- Olá fofo. Isso é que foi dormir!

Ele sentou-se ao lado dela a esfregar os olhos.

- Estava mesmo a precisar de uma boa soneca. E tu que fazes?

- Palavras cruzadas para entreter o tempo. Já agora dá aqui uma ajuda. Buraco com quatro letras?

Adérito soltou uma gargalhada.

- Querida. Não me puxes por obscenidades a esta hora.

- Pois. Tinha-me esquecido que além de parvo és depravado e brejeiro. Esquece. Não quero ajudas.

- Então querida. Buraco com quatro letras pode ser poço ou furo. E se deixasses isso e me fosses preparar um lanche. Sabias que dormir dá fome? 

- Não, não sabia. Até pensava que dormir era meio sustento! A tua sorte é que também estou com fome, senão tratavas tu do teu lanchinho. 

Ela foi preparar umas sanduiches de presunto e ele ficou sentado a olhar fixamente para ela. Hum. Estás a observar-me? Vai sair piropo. Pensou Cacilda. Aplicou a sua sensualidade em alguns movimentos em tom provocatório e desafiante. 

- Cacilda.

Era agora. Que frase imaginativa iria sair dedicada à sua beleza feminina? Ainda querem criminalizar o piropo! Qual é a mulher que não gosta?

- Cacilda. É impressão minha ou estás mais gorda? 




sexta-feira, 28 de abril de 2017

SERIES ANTIGAS - JANOSIK

A série Janosik foi produzida pela TV polaca 
e passou na RTP em meados dos anos 70. Janosik era um salteador tornado herói. Era uma espécie de Robin dos Bosques. Para além da serie, existem vários filmes sobre essa personagem. 

SERIES ANTIGAS - BARETTA


terça-feira, 25 de abril de 2017

CEM QUADROS - 5 - PAULA REGO






O VERDADEIRO 25 DE ABRIL QUE A HISTÓRIA NÃO CONTA

Existem acontecimentos históricos que não ficam na História enquanto outras lendas proliferam e tanto se teima nelas que acabam por ser “verdade”. Assim, enquanto um grupo de militares preparava a revolução que veio a acontecer em 25 de Abril de 1974, outro grupo fazia o mesmo na calmaria magnificente do Maciço Central da Serra da Estrela. Feliz ou infelizmente este grupo foi ultrapassado pelo outro e mergulhou no total anonimato histórico. Se tem vingado, talvez este país fosse muito melhor até porque pior era difícil. Este é o relato verídico de um soldado que viveu esta aventura.

REVOLUÇÃO DE ABRIL 
A outra

31 de Dezembro de 1973 – fui ter ao covil do capitão Magalhães Coutinho algures na Serra da Estrela. Era ali entre montes, vales e lobos que o corajoso capitão preparava a revolução para depor o decrépito regime da ditadura. Depois de uma dura prova que consistia em subir ao cântaro magro em pé-coxinho fui aceite como cozinheiro. A tarefa seria fácil se não fosse a escassez de alimentos. Os rebeldes não apreciaram muito o meu guisado de víboras com carqueja o que me valeu a primeira sova da operação.

15 de Janeiro de 1974 – O capitão Magalhães Coutinho explicou-me os planos da operação designada por “Operação bota a baixo”. Era muito simples. Marcharíamos até Lisboa armados até aos dentes à excepção do sargento Aldino que era desdentado e de mim mesmo que usava prótese. Assim ficou definido que todos iriam armados até aos dentes, eu até à placa e o sargento Aldino até às gengivas. O cabo Biozindo sugeriu que fossemos todos armados só até aos queixos para haver mais uniformidade, mas a proposta foi recusada visto que perderíamos poder de fogo.

11 de Fevereiro de 1974 – A moral das tropas estava baixa. Tentei animá-los com uma refeição diferente: víboras à lagareiro. Levei a segunda sova da operação que me valeu a fractura de diversos ossos secundários. O alferes Tengarrinha puxou do bandolim e tocou toda a música que sabia e que consistia num único tema: “Ó Rita arredonda a saia”. Alguns homens dançaram até à exaustão, outros até à noite e outros desertaram para não mais serem vistos.

25 de Fevereiro de 1974 – O capitão Magalhães Coutinho desmoraliza pela primeira vez e propõe que nos deixemos de revoluções e que vale mais formar uma tuna. O sargento Tengarrinha aproveitou para tocar três versões da “Rita arredonda a saia”. Os rebeldes amotinaram-se, levaram o sargento para trás de um penedo e fizeram-no engolir o bandolim.

15 de Março de 1974 – Alistou-se às nossas tropas o furriel Jacinto desertor de Santa Margarida. Trazia consigo algo de útil: uma bazuca. Quando quis demonstrar o poder daquela arma mostrou-se tão desajeitado que destruiu dois jipes e uma camioneta com dois milhões de quilómetros em estradas de Guiné. Fez voar ainda a arrecadação de mantimentos e o paiol de TNT. Ficamos dois dias entrincheirados temendo que tal arraial nos denunciasse.

30 de Março de 1974 – O capitão fixou o dia 26 de Abril como sendo o dia “B” (dia do bota-a-baixo). Para assinalar o dia histórico fiz um prato vegetariano: cogumelos com zimbro. A tropa não gostou e ofereceu-me a terceira sova da operação.

24 de Abril de 1974 (01.00 h da manhã) – partimos para Lisboa com a grande fé de que derrotaríamos tudo o que se quisesse opor à nossa marcha pela liberdade. O sargento Aldino lembrou-se de ligar o rádio da chaimite para saber como estava o tempo, o trânsito e para ouvir os Parodiantes de Lisboa. Para nosso espanto ouvimos a “Grândola Vila Morena” do Zeca Afonso. Pouco depois a rádio dava noticias sobre um grupo de soldados que marchava sobre Lisboa afim de fazer um golpe de estado. Olhamos uns para os outros em silêncio durante 27 minutos e 14 segundos ficando a cerca de meio minuto do recorde do guiness. Quem estragou tudo foi o capitão Magalhães Coutinho.

- Como é que em Lisboa já sabem que nós vamos aqui!?

O sargento Aldino continuava com a orelha colada ao rádio. Não porque lhe interessasse o programa, mas porque alguém tinha andado a brincar com super cola.

- Meu capitão. Não estão falar de nós. Quem comanda a revolta é um tal Salgueiro Maia.

- Ó raio! Querem ver que nos passaram a perna?

Paramos ali mesmo e só voltamos para trás quando ouvimos a notícia da tomada do quartel do Carmo.

- Caiu o Carmo.

Exclamou o Capitão Magalhães Coutinho.

- E a Trindade?

Perguntei eu.

- Essa continua santíssima.

Nos dias seguintes vendemos todo o material bélico a um sucateiro, compramos instrumentos musicais e formamos a tal tuna que já tinha sido sugerida. Ainda ninguém nos conhece porque ainda não sabemos tocar nada apesar de 43 anos de ensaio. Bem, o nosso capitão já consegue bater no bombo sem deslocar as clavículas.

                                                                                                                                                 Gerónimo Boaventura – Soldado Raso

CEM QUADROS - 4 - MÁRIO VITÓRIA






CEM QUADROS - 3 - ALBINO MOURA